Boa tarde! Quinta-Feira, 17 de Abril de 2014

    Adoção Tardia

A adoção de crianças com mais de três anos é considerada “adoção tardia”. Esse termo é baseado no desenvolvimento infantil, pois a partir desta idade a criança já desenvolveu autonomia parcial: não usa fraldas, come alimentos sólidos, ou até come sozinha, fala, anda, não é mais considerada um bebê.

O principal receio dos pretendentes é a história pregressa das crianças, o medo do passado, das vivências que já acompanham esse serzinho, e o receio de não saber lidar com isso. Fica-se com a impressão de que um bebê é mais facilmente “moldado”, que é mais fácil amar um bebê totalmente dependente do que uma criança maior.

Numa pesquisa realizada por Weber (2001), com mais de 240 famílias adotivas, percebeu-se que as adoções ditas tardias são diferentes das adoções de bebês apenas na fase de ajustamento. As dificuldades encontradas referem-se aos processos de socialização, da dinâmica familiar e práticas educativas da família, ou seja, poderiam acontecer também com um filho biológico ou uma adoção de bebê.

Mas para optar por uma adoção tardia é preciso preparo, abertura e disposição para enfrentar a fase de ajustamento. A história da criança pode ser marcada por dor, abandono, sofrimento, negligência. Os pais devem focar na construção do vínculo afetivo, em fazer com que a criança se sinta segura e amada, e que possa confiar novamente em um adulto.

A adoção tardia tem algumas características próprias, que podem acontecer seqüencialmente ou ao mesmo tempo, lembrando sempre que cada caso é um caso, e a intenção desse texto é apenas dar uma idéia aos novos pais sobre o assunto. 

• Fase do encantamento ou lua de mel: a criança faz de tudo para agradar os novos pais e se sentir parte da família, isso geralmente ocorre no estágio de adaptação (que pode durar 1 ou 2 meses, com crianças até 6 anos, mas pode se prolongar por mais tempo com crianças maiores).  

• Fase de testes: quando a criança se sentir “escolhida”, ela passará a testar os novos pais, com provocações, agressividade, tudo para ver se os pais realmente a amam e se não irão abandoná-la (como nas vivências anteriores). Neste momento é preciso ser firme, impor limites e regras, mas sempre com afeto e carinho. Enfrentar as birras com firmeza, mas sempre deixando claro que você é a mãe da criança, e será para sempre, mas que agora ela precisa guardar os brinquedos, por exemplo. Na psicanálise dizemos que a criança pode projetar na mãe adotiva, inicialmente, toda a raiva sentida pela genitora que a abandonou. Isso acontece por um período, e se a mãe adotiva conseguir acolher essa raiva com amor, sempre colocando que será mãe da criança para sempre, que ela o ama e não irá deixá-lo nunca, essa fase irá passar, naturalmente. 

• Regressão: A criança passa a agir como bebê, a fazer xixi na cama, a pedir colo a toda hora, ou querer usar chupeta. É como se ela quisesse viver todas as fases que não viveu com a genitora com você, é um renascimento nessa nova família. Quando a regressão começa a acontecer vemos como algo positivo, uma necessidade dessa criança se vincular a essa nova família, a construir uma história nova e viver a fase de bebê e renascer nessa nova mãe. Atenda com naturalidade, ela precisa desse espaço e tempo para a formação de um vínculo. 

• Adaptação: Não se assuste se no começo da convivência ela trouxer uma linguagem inadequada, ou comportamentos aprendidos no período de abrigamento. Dê tempo para que a criança se adapte aos costumes e hábitos de sua família. Também não tente apagar a história dela. Tire fotos de todos do abrigo, e se ela quiser retornar em alguns momentos para ver alguém, permita. Mas deixe que isso seja espontâneo, não force, vai depender do vínculo que ela construiu com os cuidadores. Com o tempo naturalmente ela irá se afastar e se reintegrar a nova vida.

Para essa nova vida, é importante sempre celebrar a adoção, fazer fotos de diversas situações, independente da idade da criança. Você pode montar um álbum com foto do dia em que se conheceram, a primeira vez que ela foi até a sua casa, a primeira noite que dormiu na sua casa, o dia que conheceu os avós e tios, tudo é fundamental para marcar essa nova fase! Faz parte do renascimento dessa criança, registre e mostre como foi especial para você!

Cada criança traz uma história, diversos grupos de apoio à adoção auxiliam casais no pós adoção, mas dependendo da situação e da história vivida, aconselho um apoio psicológico para a criança e os novos pais. As pessoas são diferentes, e para alguns pode ser mais difícil lidar com determinadas situações. Por isso a adoção tardia deve ser pensada e preparada, pois exigirá bastante dos novos pais.

Para encerrar esse artigo, seguem dois depoimentos, um de uma criança adotada tardiamente, e outro de uma mãe, retirados do livro Adote com Carinho, da Psicóloga Lídia Weber (Curitiba, Juruá Editora, 2009). 

“Não importa se consegui ser adotada com mais idade. Foi maravilhosa essa sensação que eu tive quando sentei no colo do meu pai pela primeira vez... a sensação de ser amada e poder amar, e ter certeza de que essa pessoa – o pai ou a mãe- que eu estava esperando há tanto tempo! Deus coloca os pais certos na hora que ele achar que você vai ser feliz. Deus colocou minha mãe e meu pai na minha frente quando ele achou que era a hora de me dar meus pais e eu sou profundamente feliz.

S., 15 anos (pág. 103) 

Tão fantástico como apresentar um mundo a um bebê é redescobri-lo, junto com seu filho através da adoção tardia.

L. L., mãe de dois filhos (pág. 102) 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

VARGAS, Marlizete Maldonado. Adoção tardia: da família sonhada a família possível. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1998. 

WEBER, Lídia Natália Dobriansky. Adote com Carinho. Curitiba: Juruá Editora, 2009. 

_____________________________. Pais e filhos por adoção no Brasil. Curitiba: Juruá Editora,  2001.

 
Pscologia da Adoção

 
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Anelise Coutinho Ribeiro Veiga
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